segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Alastor

Andava, ou melhor, não andava. Rastejava. Rastejava, olhando para cima, com os olhos amarelos, cheios de esperança, torcendo para encontrar alguém. Mas nunca encontrou ninguém, se tivesse encontrado alguém, agora não estaria mais ali.
Procurou dentro do lixo, algo para comer. Mas, como a sua sorte era muita, nada encontrou.
Continuou andando pelos cantos, ou melhor, rastejando pelos cantos escuros, morrendo de fome. Não comia há séculos. Literalmente. Sua miserável “vida” já durava mais de duzentos anos. Não queria continuar assim. Queria se libertar, voltar à sua verdadeira forma. Mas tinha o pressentimento de que nunca conseguiria tal proeza.
De vez em quando ele via uma pessoa passar em frente ao beco em que estava, mas nunca conseguia a alcançar, não podia correr. O máximo que podia fazer era andar lentamente, ou melhor, rastejar demoradamente.
Nunca acreditou quando foi atacado por aquela mísera criatura, que agora ele ocupava o lugar.
Lembrava-se bem de que na época, sua mulher lhe mandara parar de fumar. Não resistindo à tentação, ele saiu de casa e entrou num beco ali próximo. Enquanto acendia o charuto, foi surpreendido por um ser que ele não fazia a mínima idéia do que seria. Parecia uma criança cinzenta, porém sem qualquer pelo no corpo. Recordava-se bem das palavras que ele pronunciou:
- Você... – pronunciou a criatura com uma voz fraca e baixa.
- O que você é? – perguntou o homem, assustado.
- Deseja vida eterna?
- Me diga, o que você é? – indagou novamente.
- Apenas me diga...
- Se isso te faz feliz, sim, eu desejo.
Depois disso, o monstro sumiu, e o charuto caiu da sua boca. Quando ele acordou, parecia que estava deitado. Tentou se levantar. Mas em vão. Olhou para suas mãos, e qual não foi sua surpresa ao descobrir que se tornara o ser com quem havia conversado.
Agora, sempre que a luz solar o tocava, ele sumia, e só aparecia novamente quando anoitecia.
Desde então, tentava fazer o mesmo que seu algoz fizera com ele. Para sua infelicidade ele não morria, e sofria muito com a fome e a solidão. Mas nunca encontrara ninguém.
Sempre que alguém passava em frente ao beco em que residia, ele tentava alcançar a pessoa andando, ou melhor, rastejando o mais rápido que podia.
Um homem agora passava em frente à sua moradia. Tão logo percebeu a presença do rapaz de sobretudo preto, e cabelos da mesma cor, começou a guinchar.
O humano percebeu, e virou-se para o monstro, e ao contrário do que o ser pensou, o homem não se assustou, mas continuou indiferente. Sem hesitar, a criatura rastejante disse ao rapaz:
- Você...
- Eu sei o que você é. – respondeu o outro, para a surpresa do primeiro, que continuou:
- Deseja vida eterna?
- Não me ofereça algo que já tenho.
- Não entendo...
O homem retirou de dentro de suas roupas, um objeto prata e reto. Era parecido com os revólveres da época em que o monstro assumiu sua forma atual, mas ainda era tão diferente...
- Não tem vergonha? – perguntou o homem.
- De que? – indagou a criatura.
- De que se você se libertar, outra pessoa ficará em seu lugar. Não se envergonha de acabar com a vida de alguém para salvar a sua?
- Mas eu não posso morrer... E não quero ficar aqui até o fim dos tempos... – disse o ser fraco, tremendo de medo.
Neste momento, o homem de preto apontou a arma para a cabeça do primeiro.
- Você pode morrer sim. – disse o rapaz – Se você era um homem bom, que Ele te acompanhe para o céu. Mas se era algum pecador, quero mais que você vá para o Inferno! - e agora com uma voz de desdém - Bons sonhos...
A última coisa que aquela criatura amaldiçoada ouviu foi um grande estrondo, e a última coisa que viu foi um grande clarão. Sentiu algo perfurando sua testa com extrema força. Agora estava livre. Não precisaria mais rastejar. Poderia andar. Poderia correr. Agradecia ao homem que o libertara. Tal homem de capa escura, que andava nas ruas, matando aquilo que lhe era designado, e aquilo que também não lhe era designado. Armado com duas pistolas calibre 44, e outras armas que aqui não irei citar, ele agora deixava ali naquele beco, o resultado de mais um dia de trabalho, mais restos mortais de uma criatura demoníaca, que mesmo sendo inofensiva fisicamente, poderia causar muita dor. Agora, ninguém mais responderia à sua pergunta. Ninguém mais sofreria.
Alastor, o homem de preto, agora andava calmamente pelas ruas da cidade de Horr, a cidade que abrigava todo tipo de ser, desde os mais miseráveis, até os mais mortais. Alastor, o que seria ele? Bom, isso nem mesmo eu tenho coragem de dizer. Pelo menos agora, mas um dia eu ainda irei dizer o que ele é, mesmo que isso custe a minha vida. Continue acompanhando as histórias dele, e talvez você descubra também, mas cuidado! Ele ficará furioso com sua descoberta. A escolha é sua...